sábado, 6 de fevereiro de 2010

Comunicação e Educação Popular: reflexões e propostas

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Fonte: www.muticom.org

Suzana Costa Coutinho (*)

A sociedade atual é marcada pela agilidade e quantidade de informações. A alta tecnologia propicia essas características e, aliada à concepção do subjetivismo e do individualismo da chamada pós-modernidade, coloca em xeque a capacidade de mobilização e organização social nas formas conhecidas anteriormente, fincadas na ideia do coletivo presencial, das reivindicações coletivas e da identidade de classe. Para os movimentos populares, parece estar evidente a necessidade de se aprofundar o conhecimento sobre os conceitos de comunicação de massa e comunicação popular, em vista de, ao analisar seus próprios processos comunicacionais, com seus limites e potencialidades, e analisar a comunicação que se recebe por meio da grande mídia, possam construir propostas comunicacionais que sejam coerentes com a pedagogia humanizante e libertadora em que muitos deles se apóiam.

Para Gilberto Gimenez, citado por Pedro Gilberto Gomes (1990), quando as pessoas se comunicam estão tentando estabelecer uma “comunidade” com alguém. Esse conceito reflete sobre a comunicação humana como processo de encontro, partilha, conhecimento, troca. Gomes também informa que há outros conceitos de comunicação, baseados principalmente no pensamento do filósofo grego Aristóteles, para quem a comunicação é persuasão, ou seja, usar os meios para persuadir (convencer alguém sobre algo no que você acredita). A comunicação, entendida assim, seria o ato ou processo de transmissão de mensagens de fonte a receptores através do intercâmbio de símbolos por meio de canais. O seu propósito é afetar numa certa direção o comportamento dos receptores, ou seja, persuadi-los a pensar, sentir, fazer algo que o emissor deseja.

Essa conceituação foi estudada, difundida e aplicada pela Escola Funcionalista Norte-Americana, fundamentando-se na psicologia, principalmente no pensamento de Freud (sobre desejos reprimidos) e de Pavlov (estímulo e resposta). A equação é simples: o emissor emite suas mensagens, através de vários canais, de forma a ampliar ou criar desejos no receptor para que este reaja segundo o que espera o emissor, seja acatando os estímulos para o consumo (econômico), seja para defender suas ideias (político-social-cultural). A grande mídia e principalmente o marketing vão utilizar (e muito) essa “forma” de se fazer comunicação de massa.

No entanto, essa maneira de pensar e fazer comunicação vai receber várias críticas, inclusive nos EUA. As críticas salientam que essa visão de comunicação é unilinear (mostra uma única direção da comunicação); é uma noção mecânica de um processo humano; é apresentada como fenômeno estático (parado) e faz confusão entre informação (repasse de dados) e comunicação (processo humano).

Uma das escolas teóricas que mais criticou essa forma de se ver e fazer comunicação foi a Escola de Frankfurt (Teoria Crítica). Os pensadores dessa escola, com grande influência marxista, vão apontar os efeitos ideológicos dessa forma de comunicação e sua função de expandir e fortalecer o capitalismo. Os frankfurtianos criaram a expressão “indústria cultural” para nomear os produtos da cultura que passam a ser massificados pela indústria capitalista, contrapondo-se à cultura elitista e à cultura popular. No entanto, eles não propõem outro modelo de comunicação, mas apontam a necessidade de se criar uma ideologia crítica diante dos meios de massa.

Comunicação mediática como espaço público

Ressalta-se aqui o que Rovilson Robbi Britto (2006) afirma de que os meios de comunicação tradicionais comerciais (jornal, revista, rádio e televisão) vão ocupar o lugar dos debates públicos, chamados de Ágora (remetendo-se às praças gregas, onde se discutia a vida política da cidade). Esses meios seriam espaços públicos de embate, apropriados e utilizados pelos setores hegemônicos, nos quais se dá a exposição pública de suas opiniões, procurando naturalizá-las. E, embora possam refletir as contradições dos setores dominantes (por exemplo, entre os liberais e os conservadores), não é, no entanto, espaço de discussão, mas de convencimento, de exposição pública das opiniões das classes dominantes. A voz do povo pode até aparecer, mas como “reforço” das opiniões emitidas pela elite. Assim, tem-se um simulacro (falsa ideia, simulação) de esfera de discussão pública, mas sem o debate. Seus interesses são de persuadir, conquistar, vender sua mercadoria ou ideologia.

Os estudiosos da Teoria da Dependência, na América Latina – nome que receberam por discutir e refletir sobre a dependência econômica e cultural da região em relação aos países do Norte – nomeiam essa forma de comunicação como vertical. Trata-se de um monólogo dominante em benefício do iniciador do processo, onde o receptor é passivo, pois só escuta e obedece, e a relação social é vertical, assimétrica (desigual) e quase autoritária, ou seja, uma forma antidemocrática de comunicação.

Esses pensadores se baseiam na Pedagogia do Oprimido, onde Paulo Freire analisa os MCM como propagadores de mitos, normas e valores das minorias oligárquicas e como instrumentos da comunicação vertical e alienante. A comunicação vertical é opressora e se contrapõe à comunicação horizontal que é emancipadora. A partir dessa reflexão, outros estudiosos propuseram pensar a comunicação horizontal com três dimensões: a do ACESSO, a do DIÁLOGO e a da PARTICIPAÇÃO.

É importante salientar o que Britto (2006) reflete: a mídia tradicional não destruiu espaços públicos parciais de debate e de vivência, aqueles que se fazem no cotidiano compartilhado, que definem o lugar e a identidade social de outros setores sociais que não seja do dominante. Lugares onde o social real se realiza. Espaços de identificação, de sedução e de realização da pulsão de estar junto. Espaços de debate argumentado e de busca de coesão do grupo.

Para os pensadores latino-americanos, o modelo participativo-democrático de sociedade tem três dimensões: política e social, educacional e comunicacional. A participação é vista como a possibilidade de autogeração de mensagens e a democracia como a auto-organização das necessidades sociais. Chega-se, assim, ao conceito de COMUNICAÇÃO POPULAR.

Comunicação popular

A comunicação popular pode receber vários outros nomes: participativa, alternativa, dialógica, mas, seriam a mesma coisa? Para responder a essa questão, Gomes reflete sobre o termo popular que pode ter duas possíveis compreensões, a partir e somente dentro da concepção de classe social:

1. Intra-classista: dentro das classes populares.

2. Inter-classista: de cima para baixo, ou como doutrinação dos estratos populares pela liderança que se diz progressista, ou pela manipulação da elite sobre o povo, ou ainda pelo compartilhamento das visões de mundo, mas sem libertação.

Assim, os pensadores latino-americanos apontam para o termo “comunicação popular emancipadora”, ou seja, aquela que quebra a lógica da dominação e se realiza a partir do próprio povo, compartilhando seus códigos. Para a existência dessa comunicação, é necessária uma prolongada imersão no meio popular, que deve traduzir-se em denúncia e testemunho, a partir do que se assume a condição de educador/a e dirigente no seio do povo, contribuindo para que tome consciência crítica de seus próprios horizontes culturais.

Para esses pensadores, a comunicação será libertadora quando o povo expressar, com a própria voz, os seus próprios valores e sua visão de mundo. Ou seja, quando essa comunicação conseguir organizar o que está disperso, valorizar os elementos progressistas que subsistem no povo e tiver interdependência entre a comunicação intergrupal e a massiva. Nessa visão, a comunicação popular é relacionada e integrada com todo o movimento de organização e reforço da prática social. Essa comunicação surge a partir dos grupos mais dinâmicos dos setores populares, seja como instrumento desses setores para expressar a sua situação (de dominados) e para analisá-la e também como expressão do novo tipo de relações sociais que essas práticas geram: horizontais, dialógicas, participativas.

Alguns pesquisadores chegaram, então, à conclusão de que não são os meios técnicos que definem a Comunicação Popular, nem tampouco os conteúdos, mas o processo de produção, circulação e uso das mensagens. Sua função seria a de destruição da ideologia dominante, a construção histórica da ideologia da classe dominada (ser voz dos sem voz) e a construção do povo como sujeito histórico, social e político.

Em síntese, essa comunicação é desideologizante, libertadora, conscientizadora, mobilizadora, pois dá a palavra ao povo. Ela luta “a favor de algo” e não “contra algo”; não tem valor em si mesmo, mas enquanto se integre num processo de luta com uma perspectiva de nova sociedade. Ela é contextual: localiza as pessoas no espaço e no tempo e nas relações com a circunstância que as rodeia. Não é o “que dizer”, mas o “como dizer”.

Comunicação popular é aquela que se insere num contexto alternativo (ao capital), portanto num contexto de enfrentamento ao projeto de dominação capitalista, colocando-se ao lado de um projeto popular.

Britto (2006) salienta que convivem, nem sempre amistosamente, essas duas esferas sociais distintas: os espaços públicos parciais de debate e vivência, com seus laços lastreados no cotidiano e no real vivido, e o espaço público mediático, com seus laços simbólicos baseados no real mediático, no “comum social” mediado pelas técnicas de comunicação. Daí surge duas visões: a de disputa pelo espaço mediático e a de afirmar que o único caminho são os comuns vividos e compartilhados.

Ele reafirma que há necessidade de uma mídia de fato plural e aberta às classes e setores sociais. Explica que as mídias tradicionais têm uma estética peculiar, a da narrativa, de aceleração das imagens e do trabalho com as emoções e desejos não confessos, buscando seduzir e capturar seus receptores. Ela banaliza a emotividade, amplia a dependência das pessoas à ficção, busca apagar a tênue fronteira entre o real e o ficcional e simula o laço social: estar junto, pertencimento.

Algumas perspectivas

A Rede de Educação Cidadã (RECID) vem ampliando suas reflexões, a partir de sua prática e do aprofundamento teórico sobre educação e comunicação populares, buscando identificar as demandas, desafios e experiências que aliam as duas ações. Num primeiro momento, traçaram-se planos de formação abordando essas e mais três áreas de ação (organização, pedagógico e gestão). Entende-se que é preciso pensar e aprofundar cada uma dessas áreas, mas intensifica-se a visão de que é preciso pensar integralmente. Ou seja, cada área representa uma dimensão necessária e profundamente interligada às outras. Por isso, comunicação e educação populares devem manter grande coerência em suas concepções e ações. Assim, levantam-se, nesse artigo, algumas reflexões sobre os avanços, os desafios e as perspectivas em vista da mobilização, organização e ação populares, no sentido do fortalecimento da democracia participativa na construção de um projeto popular de Brasil.

Um primeiro olhar remete à inserção tanto da educadora/educador como da comunicadora/comunicador popular. Ainda, salienta-se que a ação da educação não se faz sem a da comunicação e que o processo desta realiza-se também como parte integrante de uma ação educativa. Tanto como agente da ação educativa ou como agente da ação comunicativa, a educadora/educador precisa estar ciente de que sua ação não é mera extensão de seu conhecimento, como alerta Paulo Freire em “Extensão ou comunicação?” (1985). Porque, se assim fosse, sua ação seria de persuasão e não de uma ação libertadora. A persuasão, explica o Prof. Paulo Freire, não reconhece a alteridade, o outro como sujeito. Mas visa à manipulação, à dominação. Uma ação educativo-comunicadora, ou comunicativo-educadora popular, precisa ser libertadora, e para isso se põe a caminho, faz junto com os sujeitos da ação – educadores-educandos. Necessita, então, conhecer a realidade onde se fincam seus pés, para se aquecer e se iluminar ao reconhecer as ações já existentes que comunicam e educam, assim como as que manipulam e dominam, ajudando a comunidade a também perceber essa realidade, problematizando-a.

Um segundo olhar leva à reflexão da prática a partir do conhecimento já acumulado. Comunicar e educar pressupõe conhecimento, que não é o ato de repetir ou reproduzir as palavras de estudiosos, ou técnicas já pré-estabelecidas por outros, que podem parecer vazias. Mas, colocar esse conhecimento como animador daquela “presença curiosa do sujeito em face do mundo”, pois “requer sua ação transformadora sobre a realidade” (Freire, 1985). Ou seja, munir os sujeitos de instrumentos necessários para compreender a sua realidade e poder modificá-la, a partir de sua ação. Ora, se uma ação educativo-comunicadora pretende ajudar a comunidade a participar efetivamente de uma ação política, tal deve ser também essa ação educativo-comunicadora: também participativa.

Um terceiro olhar conduz, então, para a ação. O agir comunicativo é intrínseco ao ser humano. Sem comunicação, não seria possível a descoberta da identidade humana, seja individual ou social. Mas, dependendo do papel e da posição dos sujeitos, o processo comunicativo pode ser vertical ou horizontal (cf. Fogolari e Borges, 2009). E isso não se aplica somente aos meios de comunicação de massa. Muitas vezes, com o intuito de promover as comunidades, alguns grupos e educadoras/educadores realizam e promovem ações comunicativas verticais. No entanto, a perspectiva dialógica que fundamenta a educação popular e, consequentemente, a comunicação popular emancipadora, compreende a comunicação como encontro entre os sujeitos do processo. Fogolari e Borges (2009) recordam que a comunicação como interação é complexa e está articulada com a vida cotidiana, sendo um conjunto de processos e não um único. Envolve, assim, frente a uma sociedade globalizada, múltiplas e fragmentadas mediações multilocalizadas, que produzem significações e adquirem sentidos para grupos específicos.

A título de uma conclusão inacabada, a reflexão entre educação e comunicação populares reforça o diálogo como mediador do conhecimento e da ação do ser humano sobre seu mundo. Um projeto educativo-comunicativo emancipador pretende, então, dialogar com as várias possibilidades já existentes de uma ação libertadora – reflexivo-ativa – e enriquecer-se com a criatividade das pessoas e dos grupos, encontrando novas formas comunicativas capazes de dialogar com a diversidade que se encontra no trabalho popular. E ser capaz de compartilhar conhecimentos e experiências, fazendo multiplicar e ampliar as formas de comunicação no meio popular.

Referências bibliográficas:

BRITTO, Rovilson Robbi. Sociedade, novas tecnologias de comunicação e a possibilidade de articulação de espaços públicos de debate e embate. In: SOUSA, Mauro Wilton de (org.). Recepção mediática e espaço público. Novos olhares. São Paulo: SEPAC/Paulinas, 2006.

FOGOLARI, Elide Maria; BORGES, Rosane da Silva. Novas fronteiras da Pastoral da Comunicação. Diretrizes e propostas de atuação. São Paulo: Paulinas, 2009.

FREIRE, Freire. Extensão ou comunicação. São Paulo: Paz e Terra, 1985.

____________. Pedagogia da Autonomia. 37ª ed. São Paulo: Paz e Terra: 2008.

GOMES, Pedro Gilberto. O Jornalismo alternativo no projeto popular. São Paulo: Ed. Paulinas, 1990.

MORAN, José Manuel. Mudanças na comunicação pessoal. São Paulo: Paulinas, 1998.

MOREIRA, Antonio Carlos. Comunicação interpessoal. São Paulo: SEPAC – EP, 1991.

SAMPAIO, Mário Ferraz. Considerações sobre a comunicação e sua história cultural. In: SOARES, Ismar de O.; MOTTA, João Manoel (org.). A comunicação na construção da paz. São Paulo: UCBC/ Paulinas, 1987.


(*) Rede de Educação Cidadã (Recid) / Talher (Minas Gerais)

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